Deficiente físico desenvolve aplicativo que disponibiliza informações sobre acessibilidade

Por carambola.com.vc - 18/03/2015

Quando nasceu, João Santiago foi dado como morto. Só respirou depois de três minutos, quando se entendeu que a rigidez dos membros era resultado de uma paralisia cerebral. Sua mãe sabia que ali começava uma jornada que exigiria coragem do caçula de três filhos, mas não imaginou que ele fosse tomar tanto gosto por superar desafios, especialmente os que aparecem na forma de código fonte na tela do computador.

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Com a mãe, Eliza Santiago (E), e a mentora, Juliana Glasser (D). FOTO: Ligia Aguilhar/Estadão

Programador se destaca na Campus Party com app para ajudar outros deficientes

Aos 23 anos, João foi um dos participantes de uma Maratona de Negócios promovida pelo Sebrae na Campus Party 2015. Ele saiu de Fortaleza e acampou com a mãe na São Paulo Expo durante os cinco dias do evento, para competir com o aplicativo que criou para ajudar pessoas que assim como ele usam cadeira de rodas. O app Dá para ir? é colaborativo e fornece informações sobre a acessibilidade de diferentes estabelecimentos, além de listas com as regiões mais acessíveis de diversas cidades brasileiras.

A ideia surgiu quando João foi convidado por amigos para ir a um bar e ficou receoso por não saber se o local era acessível. Estudante de Ciências da Computação, aprendeu a programar aos oito anos de idade estudando sozinho pela internet. Não parou mais. Nem quando os dedos das suas mãos enrijeceram.

Ele chegou na Campus Party com o aplicativo construído com os códigos que criou apenas com o dedo indicador da mão esquerda. “Gosto muito de programar porque é um desafio a cada projeto. É muito bom ver o que eu criei na tela do computador”, explica, com o sorriso aberto que pontua cada frase e se esparrama pelo corpo em uma gargalhada ofegante.

João chamou a atenção dos organizadores da Maratona de Negócios e de Juliana Glasser, da desenvolvedora de software Carambola, que foi designada pelo Sebrae para ser mentora de João e ajudá-lo em seu projeto. Encantada com a história do garoto, ela fez sua equipe passar a madrugada de quarta para quinta-feira ajudando João a colocar o app no ar.

Os dois não se desgrudaram mais. Desde então, Juliana criou um site e página nas redes sociais para o app, e se tornou a intérprete oficial de João, que tem dificuldade na fala.

Quando ele se expressa, a língua se embola no céu da boca enquanto o corpo acompanha em um movimento retorcido o som abafado de cada palavra.

A deficiência física, no entanto, não afeta sua capacidade mental. Em Fortaleza, ele faz trabalhos como desenvolvedor freelancer e dá aulas em um grupo de estudo na faculdade, mas nunca conseguiu um trabalho porque nas entrevistas sua fala e aparência incomodam.

“As pessoas acham que eu sou retardado por falar diferente”, diz. “Eu tento relevar porque eu sei que eles são limitados e eu tenho um entendimento melhor do que o deles”, diz com um sorriso.

Emocionada com a determinação do pupilo, Juliana ofereceu a ele um estágio como desenvolvedor na sua startup. Apesar da distância – ela está em São Paulo e ele em Fortaleza – ela diz que ele não terá problema em se integrar com a equipe pela internet. “Fiquei encantada porque eu gosto de gente forte, e ele sabe muito bem o que quer”, diz Juliana. “Agora ele vai ter a experiência de trabalhar com outras pessoas e melhorar seu conhecimento.”

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Equipe Carambola com o João Santiago e a sua mãe Eliza Santiago. FOTO: Carambola

 

Terapia
A mãe de João, Eliza Santiago, conta que em junho o filho amanheceu diferente. Não lembrava do pai, dos irmãos e nem da filha, de seis anos. “Ele só lembrava de mim. Nenhum médico sabe explicar até agora o que aconteceu”, diz. Ele não esqueceu, porém, da paixão por computação. Com a ajuda dos amigos e da família, relembrou aos poucos a linguagem dos códigos. “Gosto de programar porque me relaxa e me ajuda a esquecer dos problemas que, assim como todo mundo, eu tenho”, explica.

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João Santiago e sua mãe, Eliza Santiago, no Campus Party 2015.

A repercussão positiva do aplicativo Dá pra ir? na Campus Party trouxe um sopro de ar fresco para a vida de João, que agora quer criar apps para ajudar pessoas com outras deficiências. Como exemplo, cita a ideia de criar uma plataforma para indicar restaurantes com cardápios em braile a cegos. “Quero ser empreendedor. Tenho muitas ideias de aplicativos e sei que consigo fazer tudo que eu quiser, porque sou igual a todo mundo.”

Como funciona o Dá pra ir?
O aplicativo Dá pra ir? está disponível apenas para o sistema Android. O app foi lançado em uma versão de testes e o link para download está disponível no site oficial da iniciativa e na Google Play Store.

No ar desde a última quinta-feira, o aplicativo depende da colaboração dos usuários para enriquecer suabase de dados, que usa informações do Google Maps e do Foursquare para localizar estabelecimentos de todo o País.

A primeira aba do aplicativo permite buscar estabelecimentos e avaliar a sua acessibilidade em diferentes quesitos, como se possui rampas e calçadas rebaixadas, banheiros adaptados, espaço livre para circulação, piso tátil. corrimão nas escadas e chão com irregularidades.

Em uma segunda aba fica o mapa da acessibilidade, que mostra em quais lugares nas regiões próximas ao usuário se encontram estabelecimentos acessíveis para visitar.

No teste feito pelo Start, o aplicativo ainda apresentou alguns bugs e conta com uma base de estabelecimentos cadastrados pequena, a maioria deles em Fortaleza, região que João conhece em detalhes. O criador do app e a sua mentora Juliana no entanto, afirmam que estão trabalhando no aprimoramento do aplicativo e pedem para que mais pessoas testem e colaborem com o sistema para ampliar as informações do seu banco de dados.

Via Estadão